sábado, 21 de junho de 2014

Tchau, amor




Várias vezes cheguei a tomar a decisão de não te amar mais.
De não querer mais sentir meu coração se derretendo quando você me olha nos olhos e me dá um beijo suave, ou um calor nas bochechas quando você me diz que sou bonita após alguns segundos me olhando. Ou como eu gosto secretamente quando você me dá um tapa na bunda e me chama de “mulher”. Ou como você faz cafuné em mim até dormir. Ou quando você, meio dormindo, me puxa no meio da noite pra me aconchegar nos teus braços (que são sempre o lugar onde eu quero estar).
Não quero mais sentir o coração dar um triplo mortal carpado quando você fala comigo pelo whatsapp “inesperadamente” (mas que na verdade eu passei o dia esperando). De como você sempre me puxa protetoramente para o lado de dentro da calçada quando estamos andando na rua. De quando você prepara o café da manhã pra mim e sempre pergunta se ficou bom o capuchino batido que você sempre faz igual. De como eu gosto da sua risada e dos beliscões que você dá quando eu tiro uma onda com a sua cara. De como a gente se entende tão bem nos momentos mais íntimos. De como um de nós fala uma coisa nada a ver e o outro dá corda e contribui para o quadro.
Não quero sentir falta de você vindo empolgado me contar sobre o progresso na sua nova casa, ou de algum êxito no trabalho. Dos nossos planos de sairmos do país, não sem antes eu te ensinar inglês e você me ensinar libras. De como planejamos ter uma parceria na empresa de foto e vídeo.
De tantos detalhes que não consigo lista-los todos aqui. Quero simplesmente não querer mais tudo isso. Não quero mais você.
...
Mentira.
Te quero como sempre quis, até mais. O que eu não quero mais é ter que ter tudo isso e dividir com mais “alguéns”. De saber que no momento em que e viro as costas (ou quando ainda estou contigo), após um fim de semana super agradável, você já vai fazer contato com as suas outras mulheres. De saber que, apesar de ser “a oficial”, eu sou mais uma no meio delas. De que eu não sou especial pra você como você é para mim. De como você não vai sentir a minha falta durante a semana como eu sinto a sua.
Não quero mais ter que fingir que está tudo bem quando eu sei que você está com elas (porque na maioria das vezes, eu sei).  De ter que passar por cima do meu orgulho durante meses a fio.
O meu excesso de amor por você está fazendo faltar amor, por mim. Meu amor próprio anda tão desprezado que eu me pergunto se ele ainda existe. E eu percebi o quão injusto é não dar prioridade à pessoa que vai passar o resto dos dias comigo mesma: eu.
Não se trata de egoísmo. Egoísmo é pensar em si mesmo em detrimento dos outros. Nesse caso, como o fato de eu me priorizar não vai te afetar, não terei culpa no cartório.
Portanto, estou indo embora, ok? Não estou desistindo de nós. Em hipótese alguma eu deixei de te amar e acho que não deixarei de fazê-lo durante anos. Só estou cortando pela raiz o mal que me consome a cada dia, que me mata aos poucos.
Eu não nasci para ter migalhas. Eu quero alguém que esteja comigo de verdade, não apenas em partes. Eu não quero ser apenas uma distração de fim de semana, eu quero ser a companhia de uma vida. Eu quero poder acordar todos os dias e não sentir aquela familiar pontada de tristeza que acompanha pelo dia todo.
Enfim, estou reunindo o pouco de coragem que me resta para dizer não. Para dizer não a você, para dizer não às minhas doses de felicidade momentâneas e dizer sim a uma vida livre. Livre da dependência que eu tinha de receber um sorriso seu, um carinho, um boa noite.

Então tchau, amor. Eu vou ali tentar ser feliz sem você. Se quiser, se um dia sentir a minha falta, pode se juntar a mim. Será um prazer juntar a minha felicidade com a sua, juntar seu inteiro com o meu inteiro, e não mais com a metade que eu estou deixando de ser.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Daí...




Daí você conhece uma pessoa que te faz sentir como se uma corrente elétrica atravessasse seu corpo ao menor toque. E você se sente atraído por ela como se fossem dois polos opostos de um imã. E quando você menos espera, percebe que a ligação entre vocês é mais forte do que poderia se imaginar numa situação dessas. E daí você percebe que sua vida fica muito mais colorida por tê-la por perto. E daí vocês começam a brincar numa dança, num faz-de-conta, e aos poucos você vai desejando que a brincadeira seja realidade, e ela passa a virar sonho. Um sonho que você cultiva e rega todos os dias, na certeza de que dará bons frutos, os mais belos possíveis.
E daí...
Daí, de repente, tudo desmorona, sem aviso. E em meio ao caos, você vê uma luz, e tenta juntar as peças do seu brinquedo, para montá-lo novamente. Você vira equilibrista para não deixar cair nenhuma peça. Você luta contra a onda que insiste em derrubar seu castelo de areia. E você começa a perceber o quão difícil é lutar sozinha por algo que pertence a dois. Que o guarda do seu castelo de areia está mais interessado nas moças de biquíni do que na proteção do castelo. E você começa a desmoronar, junto com as paredes de areia.
E daí, você procura forças em todos os cantos. Você não quer abrir mão dos sonhos que cultivou com tanto carinho, daquela flor que era apenas um botão e nem teve tempo de florescer. E começam a crescer os espinhos. Não na flor, mas em você. E você começa a repelir qualquer tentativa de salvação, você fica apática, na defensiva com seus espinhos, apenas recebendo as rajadas de vento e as ondas que batem contra as paredes do seu coração.
E daí que você olha para dentro e vê que, em meio aos espinhos, atrás das pedras, brotando da terra, ainda há o botão de flor. E se você olhar bem, o botão emana uma luminescência tímida, quase imperceptível. Mas está ali. E você percebe que, mesmo sem mais lutar, a luz daquele sonho não se apagou. Então você decide ser forte, por ele. Sem lutas, sem tentar barrar as ondas. Apenas deixando que a maré dite o ritmo da sua vida, mas sem levar embora aquele botão de sonho, tão frágil, tão precioso. Porque um dia a tempestade pode cessar e ele terá seu espaço para crescer, para existir, para deixar de habitar o mundo imaginário e ser parte integrante da vida.

E daí, a felicidade. E daí, o amor.