Ombros retos, olhar firme, ar de indiferença. Mexa no cabelo, cruze as pernas. Sorria.
Eu repetira esse mantra para mim mesma, a semana toda. Be strong, girl!
As horas iam se passando e uma inquietação ia crescendo dentro de mim. O almoço não passou de uma encenação onde eu fingia comer, enquanto na verdade só fazia mover a comida no prato.
Borboletas demais no estômago. Mas não daquelas bonitas, que enchem um lindo jardim de graça. Não. Eram daquelas grandes, escuras, nocivas. Daquelas que dão medo, que dão vontade de sair correndo dali, com medo de que elas possam pousar em você.
Meu coração acelerava, perdido na dança que estava acostumado a executar desde sempre. Mas não era mais a arritmia agradável que precede um momento sublime. Era a batida do desespero e do medo de ter que enfrentar seu algoz.
E ele chegou. Tão lindo, tão frio, tão distante. E pensar que antes era tão meu!
Só pensar mesmo, no plano imaginário das coisas. Porque, na verdade, nunca fora. Nunca passara de uma doce ilusão, tecida em minha mente romântica com palavras de veludo e mãos fortes, desejosas.
Concentre-se. Não nele, em você! Ombros indiferentes, mexa no olhar, ar reto. Firme o cabelo, cruze os sorrisos. E as pernas.
Não, calma... acho que não era isso... como era mesmo? Respire.
Por favor, será que você poderia ficar em silêncio um minuto? Estou tentando não me importar com você aqui, e sua voz não está ajudando. E nem essa sua boca se movendo, e nem esse seu olhar em minha direção.
Que horas são? Ainda falta muito?
Essa prisão dentro de mim mesma está me sufocando. Me levem para o Carandiru, para Azkaban, para um calabouço da Idade Média. Mas não me deixem prisioneira de mim mesma, por favor!
Então flagrei seu olhar, suavemente firme, com um levantar de sobrancelhas e um sorriso que sugeriam segundas intenções. Mas, dessa vez, não era para mim. Seus olhos se fixavam em outro par de olhos em algum ponto à minha esquerda.
Ar, cadê você? Dor, não precisa se mostrar, eu sei que você ainda está aí. Respira. Não deixe a visão se embaçar!
Oh, mas quem eu vejo chegando? Aaaah, rancor! Você veio! E ainda trouxe a indiferença junto! Ótimo! Já não era sem tempo. Vamos fazer um ménage?
Ah, claro que a determinação também pode participar! Ela é muito bem vinda nesse jogo.
Vamos lá, transpareçam. Nos meus olhos, nos meus gestos, no meu corpo. Transformem a insegurança em sensualidade e confiança.
Aaah, agora sim. Ombros retos, olhar firme, ar de indiferença. Mexa no cabelo, cruze as pernas. Sorria.
Perfeito.




