sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Luzes, câmera, ação!


Ombros retos, olhar firme, ar de indiferença. Mexa no cabelo, cruze as pernas. Sorria.
Eu repetira esse mantra para mim mesma, a semana toda. Be strong, girl!
As horas iam se passando e uma inquietação ia crescendo dentro de mim. O almoço não passou de uma encenação onde eu fingia comer, enquanto na verdade só fazia mover a comida no prato.
Borboletas demais no estômago. Mas não daquelas bonitas, que enchem um lindo jardim de graça. Não. Eram daquelas grandes, escuras, nocivas. Daquelas que dão medo, que dão vontade de sair correndo dali, com medo de que elas possam pousar em você.
Meu coração acelerava, perdido na dança que estava acostumado a executar desde sempre. Mas não era mais a arritmia agradável que precede um momento sublime. Era a batida do desespero e do medo de ter que enfrentar seu algoz.
E ele chegou. Tão lindo, tão frio, tão distante. E pensar que antes era tão meu!
Só pensar mesmo, no plano imaginário das coisas. Porque, na verdade, nunca fora. Nunca passara de uma doce ilusão, tecida em minha mente romântica com palavras de veludo e mãos fortes, desejosas. 
Concentre-se. Não nele, em você! Ombros indiferentes, mexa no olhar, ar reto. Firme o cabelo, cruze os sorrisos. E as pernas. 
Não, calma... acho que não era isso... como era mesmo? Respire. 
Por favor, será que você poderia ficar em silêncio um minuto? Estou tentando não me importar com você aqui, e sua voz não está ajudando. E nem essa sua boca se movendo, e nem esse seu olhar em minha direção.
Que horas são? Ainda falta muito?
Essa prisão dentro de mim mesma está me sufocando. Me levem para o Carandiru, para Azkaban, para um calabouço da Idade Média. Mas não me deixem prisioneira de mim mesma, por favor!
Então flagrei seu olhar, suavemente firme, com um levantar de sobrancelhas e um sorriso que sugeriam segundas intenções. Mas, dessa vez, não era para mim. Seus olhos se fixavam em outro par de olhos em algum ponto à minha esquerda.
Ar, cadê você? Dor, não precisa se mostrar, eu sei que você ainda está aí. Respira. Não deixe a visão se embaçar!
Oh, mas quem eu vejo chegando? Aaaah, rancor! Você veio! E ainda trouxe a indiferença junto! Ótimo! Já não era sem tempo. Vamos fazer um ménage?
Ah, claro que a determinação também pode participar! Ela é muito bem vinda nesse jogo.
Vamos lá, transpareçam. Nos meus olhos, nos meus gestos, no meu corpo. Transformem a insegurança em sensualidade e confiança.
Aaah, agora sim. Ombros retos, olhar firme, ar de indiferença. Mexa no cabelo, cruze as pernas. Sorria.
Perfeito.

Alívio



Aquele alívio de ver suas fotos e ver que não preciso mais de você.
Que não preciso mais das borboletas que você punha a voar no meu estomago, das estrelas que você me fazia enxergar mesmo quando era dia. O triunfo interior de olhar para sua imagem e achar defeitos, de sentir que o ritmo dos meus batimentos não havia se acelerado durante tal análise.
O sentimento leve de ouvir sua voz dentro da minha cabeça pela milésima vez e me soar apenas como a voz normal de alguém conhecido. De resgatar na memória o seu cheiro e perceber que não fecho mais os olhos na esperança de senti-lo.
Aaah, o alívio... o alívio de não pertencer mais a você.
Mas bem que ele - o alívio! - podia ter durado. Bem que eu podia ter ficado sem te ver. Por que é que a vida insiste em mover os peões no tabuleiro e colocá-lo a minha frente?
Sua imagem em movimento, sua voz não mais imaginária, seu cheiro que eu sentia mesmo sem fechar os olhos... tudo isso fez com que meu alívio se inquietasse, desconfortável.
Eu, que estava impassível, agora ia aos poucos me desmanchando, como um castelo de areia em meio a rajadas de vento. Rajadas de olhos, voz, lábios, ombros largos, mãos, gestos. 
Por favor, parem! Devolvam o concreto do meu castelo de areia!
E lá estava ela. Aquela pontadinha no peito, velha conhecida, debaixo dos escombros. Estava dormindo, né, sua traiçoeira? E eu achando que tinha te eliminado de vez!
E agora lá vou eu, mais uma vez, juntar os cacos do meu castelo, reconstruir meu coração, pra deixar você de fora e não sentir mais a sua falta.

Atriz



Eu sempre quis ser atriz. Desde pequena, encenava sozinha diversas cenas, com muita propriedade.
Sonhava em aparecer nos grandes teatros, nas grandes novelas, nos melhores filmes.
Hoje, compreendo que tudo era um ensaio para o grande ato que é a vida, e que o mundo era o meu palco. Temos que conviver diariamente com situações onde se faz necessário que busquemos nossa atriz interior.
Sorrir quando o coração está sangrando, calar quando o que mais se quer é gritar o que está preso na garganta, parecer indiferente quando estamos com o peito em chamas.
Há que se saber a hora de entrar em cena, a sua deixa. Há que se saber também a hora de deixar, de sair de cena.
Hoje sei que meu sonho se realizou - em partes. Não atuo no teatro, na novela, no cinema. Atuo pra mim mesma, no dia a dia, na minha própria história.